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A solidão de um bipolar

  É incrível a capacidade das pessoas se alto intitularem depressivas, psicóticas ou bipolares, só quem sofre de tais doenças sabe o quanto é solitário o caminho de quem tem algum distúrbio.

  Eu sou uma delas, assim como milhões de outras pessoas no mundo eu tenho o que chamam de “Distúrbio de Personalidade Bipolar”, já escrevi sobre o assunto aqui, mas do ponto de vista de outras pessoas, não o meu, mas hoje estou aqui, meio que por desabafo, um pouco por revolta da falta de compreensão que o mundo ao nosso redor tem com os bipolares.

    Há muito não sofria de crises tão severas de mudança de humor, eu nunca tomei lítio como alguns, ouvia as reclamações dos seus efeitos e pensava “não quero isso, quero ser uma pessoa normal”… Ai de mim, afinal, normal ninguém é. Tomei vários antidepressivos, ansiolíticos, até que um dia eu estava bem, porém, o distúrbio também nos engana com os famosos momentos de “euforia”, você se sente ótima, capaz de tudo, o mundo é seu e você é invencível, se sente mais sedutora, mais confiável, disposta a mudar ou até a carregar o mundo nas costas, porém, é ilusório, um dia uma das peças desse quebra-cabeça maluco não se encaixa e o mundo desaba te levando junto.

               Faz mais de um mês que escuto a palavra “instável”, e não agüento mais ouvi-la sem ao menos ser compreendida. Você esta em guerra consigo mesma e é obrigada a ouvir que “há pessoas com muito mais problemas que você”, “você não é a única que sofre”, “você pelo menos tem saúde”… Blá-blá-blá! Como se não bastasse você ainda é intitulada de EGOÍSTA!

               Perdem-se amigos, perdem-se amores e deixa a família em alerta 24 horas quando entra no estágio depressivo ou de irritação.

               Outra coisa que ninguém compreende é que não se tem controle dos sentimentos, das ações, que claro desencadeiam uma série de reações.

               A revista Viva Saúde número 95 publicou uma pequenina matéria sobre as “Cinco verdades sobre o transtorno bipolar”, então vejamos quais são:

  • A doença provoca diversas funções psíquicas instáveis, principalmente a flutuação do humor. Assim, é comum a pessoa apresentar fases de depressão e outras de euforia ou irritação.
  • Pode proporcionar idéias de morte e suicídio. Na fase eufórica, denominada de mania, ocorre uma sensação de muita energia, além da fala rápida e uso de roupas mais coloridas (isso explica porque fico às vezes tagarela que até enrolo a língua no meio das palavras e meu guarda-roupa anda instável).
  • É comum períodos de ausência de libido e outros de hipersexualidade. O descontrole também afeta o nível de gastos, o que provoca uma enorme contração de dívidas.
  • A principal causa conhecida é genética. Além dela, a doença pode ter início após estressores muito intensos. Esses podem ser situações traumáticas, estresse crônico ou doenças clínicas.
  • Existem inúmeros medicamentos tanto para as fases agudas como para a prevenção. Apesar de não ter cura, seu controle é possível. Procure um psiquiatra para fazer o diagnóstico e definir o tratamento.

Essa doença também possui três fases:

  • Depressão, que pode ser de intensidade leve, moderada ou grave, e algumas de suas características é: humor melancólico; desinteresse por coisas que gostava; aparência melancólica, chorosa; Inquietação ou irritabilidade; perda ou aumento de apetite; excesso de sono ou incapacidade de dormir; agitado demais ou lento; fadiga; pessimismo ou falta de esperança; dificuldade de concentração, tomar decisão ou de lembrar-se das coisas; planejamento ou pensamento de suicídio.
  • Mania, também conhecido como euforia, possui sintomas como: alegria exagerada, animação excessiva; impaciência; agitação física e mental; aumento de energia iniciando várias atividades ao mesmo tempo sem conseguir terminá-las; otimismo e confiança exagerada; incapacidade de discernir; idéias grandiosas; incapacidade de se concentrar; comportamento agressivo, inadequado, provocador ou violento; desinibição; aumento de impulso sexual; aumento da agressividade física ou verbal; insônia; uso de drogas como álcool, cigarros, soníferos e até mesmo cocaína.
  • Mista, esta fase, como o próprio nome já diz alterna os sintomas de depressão e mania no mesmo dia (é o que mais me identifico, já que no meu diagnóstico não foi dito qual seria meu ‘tipo’).

             Cada estado tem um tempo médio de duração que variam entre dias, semanas e meses. Há também outras formas de manifestação da doença, como a hipomania, sendo menos prejudicial no circulo social e no trabalho. Pra resumir esta parte teórica, somente um psiquiatra poderá diagnosticar a doença em uma série de testes e somente ele poderá lhe medicar.

                   Questões clínicas aparte, é que estudo nenhum sabe o quanto é só a vida de um bipolar, tendo ou não amigos, família ou um relacionamento, nada parece durar, pois ninguém suporta tempo o suficiente (a não ser seus parentes, apesar de que já quiseram me interar), pois você só será vista como egoísta, mimada, descontrolada, instável, todos terão medo de você, de que tente suicídio, que caia nas drogas, que enlouqueça, ninguém o vê como um ser humano que só precisa às vezes de um colo pra chorar, um abraço, carinho e mais que tudo ser ouvido. É uma tarefa chata? Claro! Sei que é difícil para meus pais, para meu irmão… Bem, pra quem ainda convive comigo (o que parece ter reduzido ainda mais neste final de semana).

                 Eu nunca fiz o tipo de chata, chiclete, ou coisas assim, mas nessa ultima crise que estou passando, tive uns “ataques de pelanca”, eu não gosto, odeio não controlar algumas das minhas atitudes, odeio não poder ser eu mesma às vezes. Mas eu ainda me cuido, quase desisti de tudo nesse final de semana que se passou, pois em um mês, minha vida se tornou um castelo de cartas cuja uma por uma foram se desabando dia-pós-dia, e só fui julgada, criticada e tachada, tudo, menos compreendida, porque as pessoas acham que é desculpa, claro, como o ditado “desculpa do aleijado não é a muleta”, a minha não poderá sempre ser “sou bipolar”, mas não faço o tipo de quem da essa desculpa à toa, quando eu sinto eu digo, eu sou sincera doa o ouvido que doer.

                     É uma jornada longa? Claro, pois não há ainda cura pra bipolaridade, só tratamentos que amenizam os sintomas e terapia pra te ajudar a conviver com isso. Muitas pessoas, até celebridades já se declararam bipolar e estão ai, com famílias, amigos e trabalhando.

                   O bipolar não é um ser de outro planeta, mas pode ser confuso e de fases muitas vezes, o que me resta? Aceitar que posso viver só, que posso achar novos amigos, que posso superar isso tudo e quem sabe um dia, encontrar mais pessoas que consigam conviver com minha ‘inconstante instabilidade’.

 

*Fontes: Revista Viva saúde Número 95, pág. 14, 2011;

Site: http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?419

Leia também: http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?art=367&sec=26

Comunidade para bipolares: http://www.bipolarbrasil.net/

http://www.ceapesq.org.br/ceapesq/grupoDePesquisa.php?FhIdGrupo=15

*Imagens: Google Imagens

Auto-Flagelo: Se cair, levante-se

Já diziam os antigos, “mente vazia, oficina do diabo”, e estavam certos. Depois de meses sem ao menos penar em me ferir, ontem, eis que o ‘diabo’ me tentou.

É difícil… Desviar o pensamento da dor é, pra quem luta diariamente para não ter recaídas, uma verdadeira tortura. Mas nem todos iriam entender, somente quem está lutando pra abandonar um ‘vício’ pode saber do que estou falando.

Eu luto! Dia a pós dia, entre a depressão e euforia, eu sigo, mesmo que nem sempre esteja de cabeça erguida, eu sigo.

Vejo aqui tantos outros como eu e penso: porque este assunto não é abordado pelas mídias de maneira mais aberta, assim como os viciados em drogas, os compulsivos, nós também precisamos de atenção, precisamos que nossas famílias saibam que isso não é uma ‘manha’ uma tolice, precisam saber como lidar com isso, afinal somos viciados compulsivos em dor!

Tantos outros que vêm aqui me pedir ajuda, comecei a pensar: quem sou eu pra ajudar, dar minha opinião se ainda estou na ‘reabilitação’? Mas sabe, só de poder falar, de me abrir com alguém… Se essas pessoas sentem o que eu sinto quando desabafam, então, de certa forma, sou útil!

A queda nem sempre tem um motivo drástico, uma simples discussão pode alavanca um erupção emocional, eu mesma, ontem, uma discussão com meu pai, pelos mesmos motivos de sempre (família, aliais essa família que não é minha), não poder falar, não colocar pra fora aquilo que está me sufocando simplesmente porque ele não sabe lidar com isso, acha que vou surta, ficar louca, me ferir ou sei lá mais o que, esse simples fato de não ouvir, de “deixa pra lá”, isso que faz não só eu, mas muitos outros se sentir um nada e assim, nossa força despenca novamente.

Eu chorei, solucei, me isolei por segundos no banheiro, e ao olhar meus olhos vermelhos no espelho, vi um vestidinho pink da minha sobrinha pendurado, ela se sujou, eu a troquei e ele ficou ali. Fui lavar roupa! Era eu, o tanque e água por todo lado, quando do nada, aquele pensamento maldito me martelou, uma dorzinha, apenas uma dorzinha só pra aliviar. Eu sacudi a cabeça tentando fazer o pensamento sumir, fui ao varal e lá estava aquele anjinho de cabelos dourados e bagunçados me dizendo, “ou titia”. Pega-la no colo e sentir aqueles bracinhos pequenos envolvendo meu pescoço me fez seguir em frente, não podia, não queria parecer fraca na frente dela. Tantas vezes ela me viu mal, e perguntava, “titia você ta dodói?”, aquilo me partia ainda mais o coração, se eu não era exemplo pra uma sobrinha, imagina pra um filho? Sinceramente, não sou apta a ser mãe, mas isso é um outro caso.

Não vale, não vale a pena, eu já tenho tantas marcas que me afastaram tantas pessoas, pessoas boas. No meu convívio social posso dizer que sou só. Bem, ainda me sobraram alguns amigos, alguns que eu acho que me compreendem (compreensão não é o mesmo que apoiar, amigo que é amigo não apóia atitudes insanas), já outras pessoas, me acham louca, e quando o assunto é afetivo… Ai danou-se! Estou só mesmo, é raro uma pessoa que consiga ficar ao lado de gente como nós (isso soou preconceituosamente, mas sim, como minoria, somos digamos, diferentes, em alguns aspectos), mas não condeno ninguém, afinal não quero ser um peso, mais do que já sou a mim.

Uma coisa positiva que tenho visto são pessoa que vem atrás de ajuda para ajudar quem sofre desse vicio maldito. Eu gostaria de saber como ajudar, mas são sei, pra mim, ajuda quem me escuta, para os demais, penso que isso também será um bom começo.

É um dia de cada vez, um pé enfrente ao outro. Se cair e se ralar, chore o que tiver pra chorar, mas siga enfrente, não desista.

Não quero tentar induzir ninguém a ir a uma igreja, templo, ou seita, sei lá, mas a fé ajuda, seja de onde ela venha. Eu não sou espírita, sou católica, mas acredito nos ensinamentos espíritas, e se eu pudesse indicar uma leitura, leia “Nosso Lar” que hoje estréia nos cinemas, isso fará você repensar quando frases como “melhor morrer do que viver assim”, “lá não deve ser pior que aqui”, entre outros pensamentos suicidas, pois, já ouvi milhares de vezes que “não me corto com a intenção de morrer”, porém, o auto-flagelo pode levar a morta como qualquer outro vício. “Nosso Lar” mostra um pouquinho e explica o que é o suicida. Vale a pena ao menos para refletir.

Haverão dias que você não irá resistir porque está muito mal, em outros sentirá falta (isso mesmo, você poderá sem motivo algum, sentir saudades da sensação que ver o sangue correr nós dá). O auto-flagelo é uma droga, não se cale, não se isole, busque ajuda!